Ao rumo em que navegamos com um pouco de história há quem se perca pela ausência dela (dos autores)

Ramais
Sabe-se que no início do povoamento não havia "arruamentos" em Itajaí mas vários caminhos díspares que faziam a ligação do centro administrativo da povoação às mais diversas fazendas existentes na época. Esses caminhos eram chamados de "ramais". Nas memórias de Antônio da Costa FLôres, sobre a Ithajay de 1845/47, diz .."O caminho que seguia da matriz (Imaculada Conceição) se inclinava em direção aos morros, mais ou menos no ponto em que mora Januário Gabriel de Almeida, e os fraldeava até onde se preparou terreno para novo cemitério (atual Matriz SSmo. Sacramento) e, daí, passando por terrenos... de Mário Liberato, próximo ao morro... Flores disse em suas memórias que as atuais ruas não são exatamente aqueles ramais, mas ao que tudo indica foram estopim para a abertura delas. Há um trecho dessas memórias em que ele fala de um ramal vindo da Barra do Rio, ...caminho da Barra do Rio vinha por onde está (mais ou menos) a rua Sete de Setembro e do ponto em que esta recebe a rua da República (atual José Bonifácio) se inclinava para sair no lugar em que reside Antônio Martiniano da Silva, e aí seguia o trajeto da rua da Matriz (Imaculada) até em frente da casa do Major Agostinho, onde mandava um ramal (outro caminho), acompanhando a margem do rio, até o ponto em que reside João Gabriel (imediações mercado público/Rua Joinville) outro ramal que também acompanhava a margem do rio (hoje grande área da beira rio é aterrada) e que, na altura da atual residência de Alfredo Bittencourt e se dirigia para a praia (Rua Camboriú), que daí em diante, era o único caminho que havia para a Fazenda". Abaixo, as probabilidades por esta foto da década de 20:



Fotos: - Foto aérea Itajaí 1927 - CDMH - Arquivo Público de Itajaí. base explicativa visual dos autores

A grande cheia e as transformações urbana
O nome "centro" faz referência a área que serve de base para o início do processo urbano de um município e no caso, de Itajaí, o epicentro do processo urbano teve guarida em uma localidade às margens do Rio Itajaí denominada de Estaleiro (Praça Vidal Ramos - Pier), dali surgem seus arruamentos. A partir desse ponto (Marco Zero) a cidade foi se expandindo no sentido longitudinal do rio, descreve o historiador Edison dÁvila; "...seguindo as direções Norte e Sul. Para o sul, seguia na direção da Fazenda, região com moradores estabelecidos desde 1793... e para o o norte, a expansão urbana se fazia em direção ao núcleo colonial da Barra do Rio, principalmente após 1850, quando ali o Dr. Hermann Blumenau, fundador da cidade de Blumenau, construiu o galpão de recepção dos imigrantes recém chegados da Europa, e onde foram se fixando moradores brasileiros e imigrantes". Nos fundos da Igreja Imaculada Conceição havia um cemitério e, com a expansão da urbe este foi transferido para onde está a Igreja Matriz. Esta mudança permitiu a abertura definitiva da via que conhecemos por Rua Dr. Hercílio Luz, cujo nome anterior era rua da Matriz, alusão a Igrejinha Imaculada Conceição. O sentido "OESTE" era necessário devido a rápida expansão comercial portuária no ciclo da madeira em liberar as margens do rio para fins comerciais/marítmos. O problema é que essa "ocupação tardava por causa de dois obstáculos geográficos: o ribeirão da Caetana, que obstruía a passagem para o oeste e os baixos e alagadiços que formavam as áreas marginais deste mesmo ribeirão".... Em 1880, após a grande enchente daquele ano, quando o rio Itajaí-mirim desviou do seu curso normal e invadiu a cidade em direção ao mar e aprofundou demasiadamente o ribeirão da Caetana na sua parte final, praticamente isolando a cidade pelo lado norte, a municipalidade de Itajaí resolveu abrir uma nova via, que partindo da frente do novo cemitério, chegasse até o rio Itajaí-acú, permitindo um novo acesso para a Barra do Rio que é a atual Rua Tijucas. A abertura da Rua Tijucas favoreceu ainda mais a ocupação oeste, pois que do seu entroncamento com a Rua Silva, fez-se no começo deste século o prolongamento deste até o "Caminho dos Alemães", ou "rua do Rio Pequeno", atualmente denominada Rua José Pereira Liberato", salienta DÁvila. Um dos grandes desafios à época, foi sanar o terreno alagadiço nas áreas onde compõe o perímetro da rua Brusque pelo fato do Ribeirão da Caetana cortar toda aquela extensão, vindo desde a Ressacada até o atual berço 2 do Porto de Itajaí. Sanado o problema com a canalização, houve um gradativo aumento das atividades mercantis marítimas as margens do rio. A expansão urbana e até a comercial para o sentido Oeste da cidade ampliou-se, indo até a cidade de Brusque.
Abaixo: Base visual explicativa dos autores a partir de foto 1930 - em amarelo a rota (ramal) ligando o Sul e o Norte da cidade. Em azul, a rua Hercílio Luz sentido Brusque. Rua Tijucas, sentido a rua Blumenau para a Barra do Rio e rua Silva até o Rio Pequeno (expansão Oeste).



Foto aérea da década de 1950. Vemos o ângulo das ruas Hercílio Luz, Gil Stein Ferreira e Joinville divergindo das mais antigas que seguiam em direção ao morro da Cruz. O Estádio Marcílio Dias foi delimitado dentro daquele traçado urbano anterior, pelos ramais, onde o sentido oeste seguia em direção ao Morro da Cruz devido ao terreno alagadiço da região da rua Brusque. A Hercílio Luz portanto foi a condutora desta nova direção e expansão da urbe.

Sobre as ruas e seus nomes curioso o destaque:
Muitas ruas foram trocando de nome ao longo do processo de desenvolvimento urbano do Município. Os nomes foram mudados por necessidade de homenagear pessoas ilustres falecidas, fatos históricos e políticos e volta e meia um nome depreciativo também pegava. Em fins da década de 70, por exemplo, a Prefeitura de Itajaí tentou colocar o nome do Governador Irineu Bornhausen à avenida que cortou o Bairro São João, mas o "Véio Dalmo" do Diarinho e o povão a rebatizaram de "Caninana" e a "rua de trás" (Manoel Vieira Garção) que acolhia o velho cemitério local.... O fato é que após a Guerra do Paraguai muitas ruas de Itajaí receberam nomes de destaque, batalhas e datas, como é o caso de: rua Almirante Barroso, Marcílio Dias, travessa 24 de Maio (Batalha de Tuiuti), rua 11 de Junho (Batalha do Riachuelo), rua da Vitória. Por outro lado, com a queda da monarquia os nomes vinculados ao regime caíram em desgraça e foram trocados por nomes de personalidades republicanas. Foi o caso das ruas Dom Pedro II e Conde d'Eu que foram denominadas numa única, XV de Novembro (data da Proclamação da República) e Lauro Müller (militar itajaiense que foi governador, senador e deputado estadual em várias legislaturas). Outras, como a rua do Sacramento (atual Nereu Ramos - passa ao lado do Comper); rua dos Atiradores (rua Uruguai); rua da Vitória (Felipe Schimidt) e a rua do "Commércio" atual Pedro Ferreira.

E a rua Joinville?
Um olhar mais atento observará que uma sequência de transversais ao longo da rua Camboriú tem nomes de cidades. Isto porque com o advento da República, se evidenciasse importantes distritos políticos na época. Na medida em que a cidade se expandia ao sentido oeste, as ruas tomavam estes nomes. Mas repare que a sequência de nomes de municípios: Joinville, Almirante Tamandaré, Laguna, Tubarão e Lages, é quebrada por nome de almirante? O nome originariamente da rua Almirante Tamandaré (SESC) era Joinville. Porém, na década de 30 a República enfatizava "heróis", mesmo sendo do antigo regime (Império). Nesta rua seria (como foi) construída as 2 residências em 1950 para alojar os oficiais de maior patente quando estivessem em Itajaí. Dessa forma, rebatizaram essa rua tirando o nome "Joinville" para homenagear o Almirante da Marinha Real por seus feitos históricos; Tamandaré.

Prainha
Mas, tão logo, a rua 13 de Maio tem seu nome substituído por rua Joinville, criando esse hiato na sequência dos nomes dos municípios como mencionado anteriormente. A rua 13 de Maio (atual rua Joinville) era um trecho que começava na beira do rio, chamado de "prainha" e se estendia até o início da rua Camboriú (onde está a loja Florybal). Ela era o acesso à "Villa de Camboriú" atual cidade de Camboriú, o sentido "sul" da própria cidade em direção à fazenda. Começava neste trecho em função da circulação de mercadorias (daí o Mercado Público), e também onde boa parte dos serviços se concentravam no reparo de embarcações, entre outros. A rua XV de novembro era apenas uma trilha que se alongava em terreno pantanoso à poucas casas. A rota terrestre, muito antes da atual BR 101, compreendia a saída da "Prainha" (atual mercado do peixe), pela rua 13 de Maio, seguindo pela rua Camboriú e passando por toda a extensão da rua Lages (indo pela parte detrás da Havan), seguindo até a trilha do morro do Careca (atual Osvaldo Reis), e pela trilha da "praia de Camboriú" (atual Av. do Estado), culminando em Camboriú. Na sequência, cruzaria o "Morro do Encano", seguia esta via pela Praia do Canto (Itapema), trilha do tabuleiro (Av. de Meia Praia), dando continuidade a comunidade de Santa Luzia (bairro de Porto Belo), até chegar na Foz do Rio Tijucas. Uma viagem dessas poderia levar dias em função das condições das trilhas.

Primeiro plano: Rua dos Atiradores (Uruguai). Ao fundo, cemitério (atual Matriz) e no círculo, Colégio São José 1925 - CDMH-Arquivo Público de Itajaí.
Conta aí, Ithajay.
Em 1907, O Jornal "Noviddades", publica numa série "das memórias de Antônio da Costa FLôres" sobre a Ithajay de 1874/75'. Ainda, relatórios do Dr. Blumenau de 1853 e de seu sobrinho Reinholdo Gaertner de 1855, do "Blumenau em Cadernos" nos dá breve compreensão desses tempos. Abaixo, alguns recortes dessas obras memoráveis.:

Mato do passado
O núcleo urbano de Itajaí começa oficialmente com a demarcação do lote vendido à Agostinho Alves Ramos, e terreno doado à Igreja e ao Cemitério (seta e pontilhados no mapa), por José Coelho da Rocha em 1822, cujas terras abrangia toda a extensão dos bairros Vila Operária, Dom Bosco, Fiuza Lima, São João e município de Navegantes. As terras de Mathias Dias de Arzão (1794) é hoje o que chamamos de Barra do Rio, Nova Brasília, Cordeiros e São Vicente, São Roque e Espinheiros. A terras de Alexandre José de Azevedo Leite Coutinho de 1792, é o que compreende o bairro Fazenda e adjacências. Em seu trabalho investigativo "Reminiscências" o então prefeito de Itajaí Pedro Ferreira publicou uma série de memórias de Antônio da Costa Flôres sobre a Itajaí de 1840/44. Nestas publicações no Jornal Novidades (1907), Flôres nos dá pistas sobre a condição da urbe: "Mais ou menos por onde correm as ruas do "Commércio" (atual Pedro Ferreira) e da Praia (Lauro Muller) havia apenas 14 casas, sendo nesta quatro e naquela dez, próximas umas das outras, entre as quais a do major Agostinho a melhor que havia). Estas 14 casas estavam assim dispostas, não porque obedecessem a alinhamento, mas porque todas davam frente para o rio e acompanhavam a direção da praia, a distâncias pouco diferentes e em diferentes caminhos. No Itajaí não havia então nenhuma rua, nem se falava em arruamento". ainda, "Os referidos caminhos tinham ramais em direção a casas e roças, mas nenhum ramal, nem mesmo em pequeno trecho, seguia o trajeto as ruas Brusque, Camboriú, Silva, Samuel Heusi, República, 13 de Maio, 11 de Julho, Vitória, Atiradores e 7 de setembro. Da rua Hercílio Luz para o sul. Onde estão todas essas ruas, o que havia era capoeira".
*Capoeira é uma vegetação secundária composta por gramíneas e arbustos esparsos, que cresce após a derrubada da vegetação original. O termo, oriundo do tupi, designa o mato que nasceu no lugar de vegetação cortada. Significa, literalmente, "mato do passado"

"Collônia Alemãe de Ithajay"
Reinholdo Gaertner, sobrinho do dr. Blumennau, juntou ao mapa feito pelo tio e encaminhou para a divulgação da Colônia na Alemanha, as seguintes valiosas explicações, de grande valor histórico: "Há dez anos passados, estabeleceram-se os primeiros alemães no Itajaí-Açu, vindos da Colônia São Pedro de Alcântara, distante dois dias de viagem. Um grupo de homens resolutos veio de lá, subindo o rio em busca de madeira de lei, falquejando pranchas e serrando tábuas, o que, naquele tempo, como não existissem engenhos de serra, representava empreendimento bastante lucrativo. Nesta ocasião, observando a fertilidade do solo e a excelente situação da região, solicitaram do governo da província a concessão de terras, que lhes foram outorgadas em lotes de 200 geiras para solteiros e de 400 a 500 geiras para famílias, fundando, assim, a pequena colônia alemã Itajaí.. Essa gente progrediu depressa, atraindo famílias de outras regiões – das quais algumas se estabeleceram no Itajaí "pequeno" (Itajaí Mirim) instalaram engenhos de serrar e construíram uma capela, na qual católicos e protestantes, em perfeita harmonia, celebravam seus cultos religiosos, tendo alcançado um padrão de vida bem alto, quando o dr. Blumenau lá se estabeleceu também, para atrair uma imigração organizada, em maior escala". Os primeiros colonos, que então chegaram da Alemanha, encontraram, assim,patrícios já arraigados no local, recebendo, destes, conselhos e auxílios desinteressados, facilitando, dessa forma, o início da "Colônia Blumennau".
Foto: chegada de alemães no porto de Itajaí 1887 - dentre muitos que aqui aportaram aqui, muitos foram para outras terras no Vale. O que segura a bóia é Wilhelm Otto Benhard Kroplin, fundador de Ibirama/SC.

"...Dizei-me onde morais, onde é vossa freguesia, que vos quero visitar, de cada semana um dia..."
Apesar dos poucos assentamentos na Vila de Itajaí, haviam cantigas, estrofes e bom divertimento nas noites quando Flôres, lembra que "Martinho Cardoso vinha de barra velha (por ser uma barra, não município), tocar viola, cantar e dançar por aqui em 1845. Os divertimentos consistiam em fandango, sarrabalho, jogos de cartas e corridas de cavalos, que a princípio se realizaram por onde está o meio da rua Dr. Lauro Mueller e depois na praia próxima, até a Fazenda.. Vou ditar alguns dos versos que então se cantavam"....(título). É neste ambiente que a freguesia de Ithajay que Otto Hermann Blumennau procurando um local para a instalação de sua colônia aqui em 1843, descreve sua passagem por Itajaí quando obtém apoio de Agostinho Alves Ramos na empreitada: "A freguesia de Itajaí compõe-se de umas cinqüentas casas dispersas pelas margens do rio, perto de sua foz e ao longo da praia. Tem uma igrejinha, alguns pequenos estaleiros; é sede dum juizado de paz e residência do tenente-coronel da guarda nacional. Para estas duas autoridades tínhamos cartas do presidente, que nos apressámos em entregar. O Coronel Agostinho Alves Ramos acolheu-nos perfeitamente e pôs à nossa disposição um iatezinho (7 de abril) no qual subimos o Itajaí "Grande". Aproveitámos esta ocasião para levantar-lhe o curso, que não era conhecido, e para o sondar em todo seu desenvolvimento".

De bem com a vida
Flores destaca que, "...as quatro casas que havia na rua do Commércio (Pedro Ferreira) eram: onde tem negócio Bruno Malburg & Cia., a casa velha coberta de palha e pertencente ao mestre Germano, carpinteiro; residência de Manoel Fontes e parte da casa de negócio de João Amaral. Havia ainda a casinha de palha do passageiro do rio, o velho Francisco Leite, que fazia ponto de embarque e desembarque na praia, em frente à atual praça matriz (Imaculada Conceição), remava sentado, e tinha uma trança de cabelo comprido, como se fôsse de mulher, trança que foi cortada à faca por um indivíduo que queria atravessar o rio e que êle maltratou, como o fazia a toda a gente." destaca.

Nada se leva, só o chinó!
Ainda, "...no terreno baldio que existia entre a casa de negócio de Clarindo Palumbo e a de moradia de Donato Luz, casa de telha, rebocada e caiada, mas tão velha que, a maior parte do reboco já tinha caído, na qual morava um cunhado do major Agostinho, que era já muito velho, tinha sido cirurgião de um batalhão que D. Pedro I sustentou no sul – como não tinha cabelo na cabeça, usava chinó de cabelo branco – era conhecido pelo apelido de "Jaguatirica", constava que tinha muito dinheiro e, por isso, tentaram uma vez roubá-lo, arrombando-lhe o soalho da casa. Depois que morreu, se fizeram escavações, mas nada se encontrou".

Dinheiro de ouro
Flôres tece neste trecho da prosa a maior movimentação econômica da Vila de Ithajay, segue: "...a praça matriz e o terreno mais perto da frente da igreja havia uma árvore de canela de grosso tronco, bastante alta e frondosa. Pouco depois de eu estar aqui, chegou para ser consertada uma "polaca", embarcação grande de três metros; por meio de talhas e cabrestantes, envolvendo êsse tronco, foi puxada para o lugar em que está hoje o jardim fronteiro à matriz (Praça Vida Ramos); dizia-se que era de Gênova e vinha não sei se de Montevidéu ou Buenos Aires; pertencia a um tal Balão que trouxe nela muitos homens (que eram extrangeiros, falquejadores e serradores de madeira, carpinteiros, calafates etc. e o material necessário para construção de navio, exceto madeira. Para agasalhar essa gente foi construído um vasto rancho no lugar em que, até há poucos meses a Cia. Fluvial tinha uma casa de madeira e estaleiro. Os consertos da "Polaca" foram muito consideráveis; duraram bastante tempo; muitas pessoas aqui tiveram de auxiliá-los, procurando madeiras pelos nossos matos, trazendo e fazendo outros serviços. Os pagamentos eram feitos em dinheiro de ouro. Itajaí nunca tinha visto tanta animação no trabalho e circular tanto dinheiro".

Ô, seu amarelo!
Comum no colóquio local, a expressão "ô seu amarelo" É usada para "enxotar" uma pessoa que está nos irritando. Talvez, parte desta formação cultural estava nas condições sanitárias da época. Segundo Flôres, "...no território que compreende o município de Itajaí, apesar de existirem muitos brejos, pântanos e inúmeros lugares em que as águas das chuvas, com frequência, se achavam estagnadas, a salubridade era admirável. Não se conheciam maleitas, sezões, febres, influenza e outras moléstias de que hoje tanto se fala. Nas raras vezes que sucedia morrer alguém, quase sempre se trata de quem já tinha chegado à velhice. Em geral os habitantes apresentavam aspecto sadio. Entre as crianças é que se encontrava uma ou outra amarela, por se dar ao vício de comer terra"

Boa dose de coragem
Flores ainda nos surpreende com suas memórias, em seu tempo vestido: "Quase tôda gente, máxime em casa, ou na roça, vestia roupa de "riscado da terra...Para os lados da Praia Brava – creio que os moradores aí eram poucos – era onde mais se plantavam algodoeiros e mais se fazia "riscado da terra. Em geral, os homens andavam em mangas de camisa. Muitas mulheres assistiam os atos religiosos com sáias dessa fazenda. Quem queria qualquer outra fazenda, mandava compra-la em Destêrro, porque aqui não havia loja. Muitos homens, principalmente os que moravam distante da povoação traziam, sempre, consigo, facão e arma de fogo. Fato que muito depõe em favor da índole dos habitantes: a pouca frequência de crimes, apesar da facilidade com que êles poderiam ser cometidos e ficarem impunes. A maior parte dos conflitos tinha por origem a preocupação que nutriam alguns indivíduos de serem considerados valentes, as disputas em corridas de cavalos e, sobretudo, o abuso da aguardente".

Terrenos de fé
Logo, com o estabelecimento de comércio local, os alemães, em sua grande maioria eram luteranos e com tino comercial surpreendente. Porém, Flôres destaca que, "Não se cogitava de política. Mais tarde é que José Mendes da Costa, Rodrigues, perante o cirurgião Luís, da Armação, andou tratando disso e se começou a falar em partido Judeu (liberal) e Cristão (conservador)". O fato é que na Freguesia de Ithajay o "fervor religioso não era grande, tanto que, apesar de ter sido doado, havia muitos anos, o terreno em que estão hoje a igreja e a praça matriz (Imaculada Conceição), para construção de uma capela, ainda não estava construída, ao passo que a Penha possuía uma igrejinha regular. Durante muitos anos os padres celebravam missa em oratório particular, na casa em que residiam. Lembro-me que o Padre Francisco Hernandez, que era espanhol e tinha vindo de Pôrto Belo, fêz construir uma casa no lugar em que hoje tem negócio e moradia Olivério Vieira de Souza e nessa casa celebrava missa, tendo também mandado fazer os alicerces que ainda agora se vêem em frente a êsse lugar. Dizia-se que o primeiro pároco que houve aqui foi um frade franciscano, de nome Pedro Agote". O fato é que na medida em que os alemães se destacavam nos negócios na cidade não demorou para que a ciumeira começasse a aparecer, inclusive a fé e a igrejinha por aqui.
Foto: fotocomposição dos autores 2023/Vista aérea de Itajaí 1954 - nos círculos, Matriz (Imaculada) e Luterana - CDMH - Arquivo Público de Itajaí.

"Check-in"
....Flores descreve o árduo empreendimento acerca dos colonos ao chegarem por aqui nos idos de 1850, ressalta: "o porto de Itajaí ainda não existia para barcos maiores como fragatas, veleiros ou navios, estes aportavam no Ancoradouro das Cabeçudas, local onde as embarcações que transportavam imigrantes e carga para as Colônias de Brusque e Blumenau aportavam. De lá, os passageiros eram transportados em pequenas embarcações até os Barracões dos Imigrantes (com capacidade para abrigar 160 a 200 pessoas), construídos na foz do rio Itajaí Mirim, conhecido até hoje como Barra do Rio. Ao chegar em terra firme, muitas vezes exaustos pelos meses de viagem, os imigrantes descansaram alguns dias no barracão antes de seguir viagem para a Colônia. Naquele tempo, o rio era a opção mais segura e fácil para chegar à Colônia. Botes, lanchões e canoas eram utilizados para a viagem que demorava em torno de 2 a 3 dias entre Itajaí a colônia de destino (Blumenau ou Brusque). Chegando na Colônia, os imigrantes ainda ficavam alojados por algum tempo na Casa de Recepção da Colônia, destinada ao abrigo provisório de imigrantes que já haviam começado, naquele tempo, o povoamento das Colônias".

Fundo saco
"O rio vinha quase em linha reta até chegar aos morros da Fazenda e aí se encurvava bruscamente, dirigindo-se para o mar; apenas na margem direita, fazia primeiro uma suave curva côncava, e depois, no ponto correspondente ao centro da povoação, uma curta convexa. Mas, pela ação das marés, de certos ventos e das enchentes, principalmente a de 1880, deu-se o seguinte: a curva côncava se foi transformando nesse fundo saco, que parece ameaçar a existência da cidade." Ressalta Flores.
Foto: Vista aérea de Itajaí - 1920 e Texto transcristo: 1907 - Reminscências I. Pedro Ferreira e Silva. Jornal Novidades. Junho de 1907; Blumenau em Cadernos. Tomo II. Setembro de 1959. Nº9, páginas 165 – 167.
Conta aí, Ithajay.
O programma, pois, do NOVIDADES será dar muitas, muitas e muitas noticias locaes, de modo que quem o ler poderá ficar certo de estar ao corrente de tudo quanto aqui occorrer digno de nota."
1º Editorial do Jornal Novidades, 05 de julho de 1904


Nota de jornal O Comercio 1901 - CDMH - Arquivo Público de Itajaí.
Dona Cachorrinha e a luz sem querosene
A "CASA BURGHARDT" construída no ano de 1902, projeto do arquiteto alemão Reinhold Roenick, a pedido do proprietário Harry Hundt; imigrante alemão e negociante que aqui se instalou. Uma característica marcante dos casarões desta época, aliás, é que são possuidoras de duas fachadas, uma voltada para a rua e outra para o rio. Hundt instalou seu comércio de secos, molhados e armarinhos, no térreo; e sua residência, no primeiro andar. Casado com Mathilde Bauer, a qual levava o seu sobrenome, tornou-se viúva tão logo. Mesmo assim, Mathilde segue com as atividades comerciais iniciada pelo marido falecido. Segundo o historiador Edison dÀvila, o sobrenome "Hundt", em alemão, quer dizer "cachorro" e a viúva Hundt passou a ser chamada pelos itajaienses de origem luso-brasileira de "Dona Cachorrinha". Apelido com que ela não se simpatizava muito, mas que acabou por aceitar", Ainda, "Após contrair novo casamento com Nicolau Burghardt, Dona Cachorrinha passou a utilizar o sobrenome do seu segundo marido e sua residência comercial passou a ser conhecida como "Casa Burghardt". Houve uma ocasião em que o Jornal "O Commércio" noticiou a chegada de uma lâmpada elétrica na cidade em exposição na loja de dona Cachorrinha. Houve formação de fila para ver tal novidade. Mathilde viveu na casa até seu falecimento em 1955. A Casa é sede da Fundação Cultural de Itajaí. (Tombo Estadual 3460/2001 e Municipal 5759/1998).

Hospedeiro
O "Hotel Brazil" inaugurado em 1897 foi administrado por Alexius Reiser. Consta que no local, se faziam grandes negócios e durante a primeira Guerra Mundial era o ponto onde se buscava as informações sobre os acontecimentos beligerantes que massacravam o continente Europeu; pois as famílias que de lá procediam, iam receber as correspondências trazidas pelos emissários que faziam o elo de comunicação entre Itajaí e além mar. Esse cenário se repetiu na Segunda Guerra Mundial, com o agravante de que o Brasil também tomou parte, enviando tropas, os chamados Expedicionários (pracinhas). O Hotel Brazil, se tornou assim o "ponto de encontro" das pessoas da cidade que buscavam noticias sobre o desenrolar dos fatos, pois, dos soldados que partiram para a guerra vários eram filhos de Itajaí. Além, do "ponto de encontro" dos homens de negócios, e parada obrigatória das pessoas ilustres que passavam por Itajaí. Bandeiras sempre hasteadas significando a pujança do ambiente. Construído no estilo "Republicano" de inspiração romântica e neoclássica, que se caracterizava pela burguesia urbana brasileira, à época. O hotel figura entre os hotéis mais antigos de Santa Catarina com funcionamento ininterrupto, desde 1897. (Tombo Estadual 3459/2001 e Municipal 7927/2006).


O grande incêndio
Em 1871, a necessidade de um mercado público era latente, mas não chega a se materializar. Vinte anos após, os Conselheiros debruçavam-se sobre um projeto em terreno de marinha denominado "praia do rio". Mas, somente em 1º de Janeiro de 1917 é que se materializou a elegante arquitetura eclética e imponente do mercado. Destinou-se à venda a varejo de gêneros secos e molhados. Em 1936, foi abalado por um grande incêndio onde moradores relatam em jornais da época o caos instalado na cidade. Em sua recuperação, foram demolidos os frontões e adaptados a sua arquitetura o "art-déco", já aplicado ao prédio irmão que ficava à beira do rio (local da atual Capitania dos Portos), exclusivamente para a venda de pescados. Por ali passaram inúmeras histórias que permanecem no folclore da cidade. (Tombo Estadual 3460/2001 e Municipal 5755/2001).


Velas pro santo
A Casa é datada do final do século XIX. Residência de distinta família de imigrantes "ativos na vida política republicana". Foi uma das primeiras construções realizadas pelo arquiteto alemão Reinhold Roenick, em estilo neoclássico eclético, ligados à atividade portuária que ali se desenvolveu pela valorização da Erva Mate e da Madeira. A casa construída com o objetivo de tornar-se a segunda residência de Marcos Konder, o patriarca da família Konder, cuja morte súbita no Porto de Hamburgo na Alemanha, encerrou seu retorno à Itajaí sem nunca ter morado na residência que mandou construir. Comitê Civilista Pró-Rui Barbosa a partir de 1910, instalado por seus filhos Marcos, Adolpho e Victor, a "Casa Konder" passou a abrigar personagens políticos das esferas municipais, estaduais e federais. Fato curioso é que o estilo da casa, marcado pelas colunatas, frontão reto na fachada principal e arcos plenos de suas aberturas, possuía duas esculturas em porcelana, em que uma celebra indústria e a outra a agricultura (ambas em acervo no Museu Histórico de Itajaí). Reza a lenda, que logo que foi inaugurada os proprietários eram tomados de surpresa por velas acendidas em sua fachada porque achavam, os residentes locais, tratar-se de "santos" tais esculturas. (Tombo Estadual 3460/2001 e Municipal 5756/1998).


Pau pra toda obra
Industrial, financista, comerciante, o empresário Guilherme Buso Asseburg foi acionista da empresa Asseburg & Cia, que atuava no setor de importação e exportação, Agenciador da Companhia de Navegação Lloyd Brazileiro e Companhia Fluvial Itajahy-Blumenau 1904, teve estaleiro, serraria a vapor, fábrica de gelo, engenho de beneficiar arroz, usina de açúcar e fazenda de cana e café trapiches. Católico praticante, participou da Comissão Organizadora da Festa de Nossa Senhora da Conceição em 1904. Sócio das empresas responsáveis pela instalação da primeira linha telefônica em 1907 e rede elétrica em 1909. O primeiro a tratar do beneficiamento madeireiro na região. Importa da Alemanha o primeiro caminhão e automóveis no ano de 1914, o que acelerava seu modo de produção na era fordista. Proprietário de barcos de pesca, foi pioneiro na pesca industrial também com botes movidos por motor a gasolina em 1915, dando norte futuro a economia da pesca devido a queda de produção da madeira a partir da década de 50.



Do Consulado à consulesa
Em meados do século 19 começaram a chegar os imigrantes alemães. Ligados à agricultura muitos traziam também a experiência na indústria em função do processo de industrialização em curso no velho continente, além de famílias com forte relação com o comércio, razão pela qual se estabeleceram às margens do Itajaí Açu, Daí nasce o porto e Itajaí e se torna o entreposto comercial com a Europa, América do Sul e outras regiões do país. Itajaí sendo importante entreposto comercial e fluxo de entrada de estrangeiros, .por décadas, fez com que o governo brasileiro instalasse aqui o "Consulado Alemão", importante elo de registro e integração às terras no Vale do Itajaí, principalmente na recém criada Colônia Dr. Blummenau. Após a sua desativação, já com a cidade de Blumenau em pauta, passou por anos fechado. Abrigou na década de 70 na esquina da Rua Lauro Muller, o Bar do Mitha, com mesas de bilhar esculpidas em carvalho e o Trud´s Bar (bar da mais velha), que vinha desde a década de 60 na esquina oposta; se popularizando no conjunto de bandeiras de vários países e pista dançante para as moças "de vida fácil", no colóquio local. Certo é que Trud´s era peculiar, havia nela um leve toque de surdez. Se consagrou em fins da década de 80 como importante centro aglutinador da boemia intelectual.

Lágrimas de sal
Em 16 de março de 1934 o jornal O Pharol de Itajaí estampava a manchete: "Em sua residencia à rua Fluvial falleceu hontem à tarde, na idade de 56 annos, a sra. Judith Tavares dos Santos." Filha de escrevente oficial da Guarda Nacional na Comarca de Itajahy e, sua mãe, integrante da poderosa família Pinto da Luz, Judit era reconhecida por todos como "a louca de amor'. Apaixonada, casou-se com um marinheiro que fazia as rotas entre entre Ithajay e Rio de Janeiro e numa despedida habitual de trabalho ele nunca mais retornou. Morreu em viagem. Desde então, diariamente Judit colocava suas melhores roupas e adereços e seguia pela Rua São Francisco (Ferry boat) onde havia muitas empresas marítmas. Ficava alí parada, olhando ao horizonte o retorno de seu amado. Perguntava as pessoas se o tinha visto, se tinham notícias. Todos sabiam, só ela que não aceitava. Na medida que o tempo ia passando seu estado de espírito dava sinais de demência, se isolando do mundo para a barra de Ithajay. Contraiu tuberculose. Trajano, poeta catarinense, escreveu: "Na manhã que eu a vi, ella já era louca./ E assim, na semelhança exacta de uma louca./ Trazia na cabeça uma porção de flores / farrapos da illusão dos seus curtos amores." Juventino Linhares, o maior cronista de todos os tempos, sentenciou: "Dentre esses vultos...era do drama que a inutilizara para a sociedade e para a família."

Itajaí declara guerra!
A canhoneira " Panther" da Marinha de Guerra da Alemanha chegou em 17 de novembro de 1905 em Itajaí, ficando fundeado na enseada de Cabeçudas. Nos 9 dias em que ficou ancorado o Panther foi o centro das atenções da população local e do médio Vale do Itajaí que se deslocam para vê-lo. Educandários promoveram visitas onde a criançada admirava-se com a nave. Jantares formais com autoridades davam tônica ao espetáculo dos soldados do Kaiser Guilherme II. Em 27 do mesmo mês, um "malacabado" de nome Hassmann fugiu do navio, logo, soldados tripulantes invadiram a cidade de Itajaí com armas em mãos, revistando casas e estabelecimentos comerciais, em flagrante atentado contra a soberania brasileira. Um hóspede (Fritz Steinhoff) do "Hotel do Commércio" de Gabriel Heil foi preso pelos alemães que diziam ser o "protetor" de Hassmann, pois não o encontraram na cidade. Vidal Ramos, então governador, providenciou um inquérito. O escândalo diplomático chegou a pressionar o Chanceler Rio Branco que enviou carta à Washigton declarando Guerra à Alemanha mas a declaração só não foi à pique porque o embaixador brasileiro nos EUA – Joaquim Nabuco – colocou panos quentes, ganhando tempo para operar na diplomacia. Internacionalmente conhecido como 'O caso Panther', após um pedido de desculpas alemão, a paz voltou a reinar entre esses países já que Itajaí não tinha a mínima condição de sustentar uma guerra contra o império do Kaiser, muito menos, o Brasil.

O "outro lado" do milagre
O primeiro cemitério de Itajaí, conhecido por "outro lado" era localizado no "Pontal" (região dos molhes de Navegantes), e onde eram enterrados os do lado de cá. Com a doação do lote por José Coelho da Rocha (Juquinha Rocha) e a iniciativa de Agostinho Alves Ramos para a construção da capela da Imaculada Conceição, o cemitério foi instalado junto, na atual praça Bruno Malburg. Quando iniciado o vento separatista da Freguesia do Itajahy para elevá-la à condição de "Villa" vereadores de Porto Belo encaminharam ofício ao presidente da Província de Santa Catarina dizendo "não se tinha sequer água potável para beber e ...onde os mortos são sepultados no lodo e pântano tendo já ocorrido andarem animais com pedaços.. de de rasto pela povoação!" Estes vereadores faziam alusão as cheias que assolavam o referido cemitério, revirando a terra, desenterrando os seus mortos. Foi nesse cenário que ocorreu um fato curioso. Ao reconstruírem o "bendito cemitério", após uma enchente dessas, encontraram entre as sepulturas abertas e destruídas pela força da água do Rio Itajaí uma com característica especial: um caixão deteriorado contendo um defunto com seu corpo totalmente intacto. Os trabalhadores alardearam à Vila dizendo ser milagre do alemão. Logo romarias se formaram e velas acesas ao defunto que "não queria morrer", apesar do padre perder muito tempo explicando ser o corpo de um empresário alemão que veio a ser embalsamado e trazido para ser sepultado no jazigo da família. Tanto foram os casos e a expansão da "romaria" urbana que o cemitério na época foi transferido para o local onde está a igreja Matriz de Itajaí.

"Postaes de Ithajay"
A Tipografia Imannuel Curllin (local onde encontra-se o antigo Edifício Olympio, foi a primeira casa "typográphica" em fins do sec XIX e início sec XX a instalar-se no Vale do Itajaí. Curllin também foi o primeiro a trazer a novidade da época: a fotografia. Parte dos registros iconográficos deste período traz a sua impressão sobre a geografia e populações locais e do Vale do Itajaí; seja através dos panfletos de propagandas, seja, pelos cartões postais.


Conta encerrada
"Abra uma conta no INCO e pague com cheque'. Com este slogan, o Banco INCO (Banco Indústria e Comércio de Santa Catarina S.A.), foi uma empresa que marcou na história de Itajaí e o primeiro banco a emitir titulo ao portador (cheque). Fundado em 1935 por Genésio Miranda Lins, Hercílio Deeke, Otto Renaux, Irineu Bornhausen, Rodolfo Renaux Bauer e Antônio Ramos, quando a cidade era um grande polo exportador de madeiras. A primeira sede foi o prédio da atual papelaria Big Star, esquina da rua XV com Hercílio Luz. A segunda e ainda maior foi o prédio onde está o Bradesco, na mesma rua. Reza a lenda que a instituição era o banco dos Bornhausen (UDN) por onde boa parte de sua movimentação financeira era constituída pelas receitas do Estado; era o único banco com matriz em Santa Catarina. Em campanha para governador, Celso Ramos (PSD) propunha a criação de um banco estadual (BESC) e que "tudo ficaria mais fácil". Com a sua vitória nas eleições em 1962 o BESC foi criado. Na verdade, o objetivo era tirar o poderio econômico das mãos dos adversários políticos, pois com o INCO, a turma do PSD não tinha crédito, logo, qualquer campanha eleitoral não teria êxito.


A "Deutsch Schule"
No local onde hoje encontra-se o Centro Comercial Torre Azul, no centro de Itajaí, existia a escola alemã, a "Deutsch Schule" . Sua origem está relacionada à fundação da Colônia Dr Blummenau em 1850, pois os imigrantes que por aqui se instalaram não admitiam a possibilidade de que seus filhos crescessem analfabetos. O hábito e gosto pela escola estavam atrelados à vida religiosa dos imigrantes alemães, uma vez que, em sua pátria o centro em torno do qual giravam as principais atividades sociais eram a Igreja e a Escola. Seu funcionamento seguiu até a metade da segunda grande guerra.


O imaginário do perigo alemão
Na esquina onde encontra-se o Sodegaura Center, havia no inicio da Sec. XX, o Hotel Lippmann. Otto Lippmann foi pai e sócio de Paulo Lippmann, e fez funcionar um engenho de serrar madeira na localidade de Encano em Camboriú; donde retirou toda a madeira para construir o Hotel Lippmann no centro de Itajai. Com o sucesso do empreendimento, logo o prédio se tornou maior, em tijolos. O fato é que parte dos alemães que aqui chegavam hospedavam-se neste hotel por ser ali o alemão a língua corrente. Com a grande segunda guerra e o "cerco" aos alemães no Brasil, o hotel foi fechado e seu proprietário voltou-se para Blumenau, por mágoa local. O contexto do período compreendia no imaginário coletivo a ideia de que o perigo nazista se remetia também ao ''perigo alemão'', sem distinções. Para os alemães do estado de Santa Catarina, na sua grande maioria, a Guerra não os atingiria, pois alguns já estavam há mais de duas gerações no país, portanto não teriam ligação a Alemanha sobre o controle do Terceiro Reich.



"ô abre alas que eu quero passar"
Em fins de 1890 Itajaí tinha pouco mais de 12 mil habitantes e apenas seis ruas: Pedro Ferreira, Lauro Müller, XV de Novembro, Felipe Schmidt, Camboriú e Hercílio Luz. A República havia sido proclamada em 1889 e estourara a Revolução Federalista, deixando o Sul do país em estado de choque. A atividade social era o único remédio para cicatrizar a ferida e estimular a união das elites. Apenas oito anos após a queda de Dom Pedro II, surgiram as Sociedades Estrela do Oriente (local onde encontra-se a Sec. Salesiano na rua Felipe Schimidt e Sociedade Guarany que, em 21 de março de 1897 abriu suas portas (local do PHD Office o final da Manoel Vieira Garção). Lá foi criado o 1º corpo de teatro, orquestras e modalidades esportivas norte-americanas como tênis, basquete e vôlei. Também foi lá o estopim para a criação do Clube Náutico Marcílio Dias para modalidade de remo. O estilo californiano, visto nas telas de cinema, levou a construção da nova sede da Sociedade na rua Hercílio Luz, inaugurada em 1953. O clube foi palco para importantes manifestações culturais, que merecia destaque o teatro, o carnaval e a música. Foi em sua primeira estreia da apresentação de cinema mudo na cidade.


Casa própria da fé
Foi a primeira Igreja a ser construída no Vale de Itajaí, apesar de Flôres afirmar em suas memórias que "fervor religioso não era grande, tanto que, apesar de ter sido doado, havia muitos anos, o terreno em que estão hoje a igreja e a praça matriz (Imaculada Conceição), para construção de uma capela, ainda não estava construída, ao passo que a Penha possuía uma igrejinha regular". Destaca. Sua construção começou em 1823, toda de madeira (feita de pau-a-pique), inaugurada no dia 02 de fevereiro de 1824 – conforme correspondências encontradas no Arquivo Histórico de Itajaí – "louvar ao Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora dos Remédios". Sua construção em madeira não se manteve em pé por muito tempo, devidos a fortes ventos e temporais, onde novamente os moradores da cidade: Agostinho Alves Ramos sua esposa Ana Maria Rita e o padre Pedro Antônio de Agote, começaram a construção da nova Igreja de alvenaria em louvor ao Santíssimo Sacramento e Nossa Senhora da Conceição, que aconteceu entre os anos 1837 à 1840. A segunda fase se estendeu até o ano de 1899. A última mudança significativa na igreja deu-se com a colocação do relógio doado por notáveis da comunidade no ano de 1899. O cemitério ficou no jardim atrás da Igreja Imacula Conceição até 1863. Depois foi transferido para o terreno onde está o estacionamento da Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento. (Tombo Estadual 2294/1998 e Municipal 7926/2006).


Agostinho e o dinheiro que sumiu
Atrás de uma placa de pastelaria na rua Lauro Müller, encontra-se uma das primeiras edificações em tijolos de Itajaí. Em fins de 1823, fixou-se nessa colônia Agostinho Alves Ramos e sua esposa Rita. Ele é considerado um dos fundadores do município de Itajaí porque ajudou na construção: da primeira capela (erguida por um escravo seu, o Simeão), dedicada ao Santíssimo Sacramento e tendo como co-padroeira Nossa Senhora da Conceição. Por iniciativa de Agostinho, foi feito o primeiro cemitério; a primeira escola pública e o primeiro distrito policial. Agostinho, um próspero comerciante (possuía armazém e depósito, "secos e molhados", na barra do Itajaí-Mirim e sócio de Anacleto José da Silva. Integrou a antiga Guarda Nacional, foi Tenente-Coronel e Coronel Comandante do 7° Batalhão dessa Guarda. Era um homem de vasta cultura: "mestre em riscar plantas de navios e que vários dos grandes barcos construídos no Itajaí obedeceram aos planos por ele elaborados" comenta Flôres. Deixou sua marca ainda na cultura e na arte, sendo conhecido por suas poesias satíricas, que são inclusive, uma das primeiras manifestações artísticas das quais se tem registro na cidade. Liderou a luta pela emancipação de Itajaí que se concretizou 30 anos mais tarde. Quando foram convocadas as primeiras eleições para a Assembleia Provincial em 1835. Das memórias de Flôres segue; "Termino cumprindo o grato dever de dar mais informações acerca do Coronel Agostinho Alves Ramos, considerado o primeiro homem de Itajaí. Era carioca e casado com uma senhora portuguesa. Não tinha filhos. Sabia muito bem ler e escrever. Tudo o que aqui se fazia tendo em vista o adiantamento do lugar era de iniciativa com o auxílio dele e quase toda gente se aconselhava com ele. Dava atenção a todos que o procurassem, por mais humilde que fosse. Quem queria alguma coisa do Itajaí ou um pedido para o Desterro ou para o Rio de Janeiro ele se encarregava. A esposa morreu em 1850 e ele em julho de 1853. Para atendê-lo, veio de Porto Belo um cirurgião belga, de nome José Jamar Pletting, foi sangrado, perdendo mais de uma bacia de sangue e morreu umas duas horas depois da sangria. Assisti a tudo isso, porque era casado com uma afilhada dele, costumava freqüentar-lhe a casa. Consta que deixou dinheiro, mas nada se encontrou, porque surrupiaram".





...do cinema mudo, O Vento Levou!
Os filmes exibidos nas grandes salas de cinema encantaram por muitos anos pessoas das mais diversas idades. O cinema sempre exerceu forte influência na vida cultural das pessoas. Em Itajaí, o cinema chegou por iniciativa de Busch que em 1910 procurou o industrial Felix Busso Asseburg, diretor da Asseburg & Cia, que possuía um dínamo gerador de energia nos fundos do seu estabelecimento. Asseburg era um cidadão visionário e concordou em levar um fio transmissor até o edifício Guarany, aonde Busch instalou seu cinema permanente, o "Cinema Ideal". Os empresários conseguiram com que as ruas que transmitiam o fio também recebessem a eletricidade, inaugurando o primeiro trecho iluminado de Itajaí. Como a rua "De trás" (Manoel Vieira Garção), situava a Sociedade Guarany, esta via foi a primeira a receber eletricidade. A iniciativa ganhou a admiração do Governo Municipal, que ampliou e inaugurou a rede de iluminação em todo o âmbito urbano da cidade no Natal do mesmo ano. Fato curioso é que nota do Jornal Pharol de 20 de outubro de 1911, chama a atenção para uma sessão extraordinária em arrecadação de fundos para os pobres que foram vítimas das enchentes daquele ano: "O Cinema Ideal. Amanhã, sabbado, grande e extraordinaria funcção com fitas novas e attrahentes, no salão Gurany. Domingo novo espectaculo em beneficio dos pobres inundados, com excellente programma. E' de esperar que a nossa população darà mais uma vez a prova dos seus setimentos altruísticos, concorrendo em geral ao cinema, para que o producto dessas funções possa auxiliar a minorar os sofrimentos e necessidades dos pobres victimados pela enchente. Todos, todos ao espectaculo!!!" Após alguns anos, outras salas de cinema marcaram época como: Cine LUZ (prédio da loja Bom Sucesso na Hercílio Luz), Cine Itajaí (local onde encontra-se o Ed Ômega na Manoel Vieira Garção e o Rex (local onde está a Pittol).
Foto: sobreposição Cine Rex e Rua Manoel Veira Garção. Demais, panfletos Cne Ideal 1910/17 CDMH - Arquivo Público de Itajaí.

Parada obrigatória
Um acidente com um ônibus causou frisson na Itajaí de 1958. A casa onde se encontra atualmente o "Garden Italiana Café", na Rua Olímpio de Miranda Junior, foi atingida num acidente de ônibus. Esta rua na época era o corredor de ônibus vindos de Brusque e Blumenau com parada na Praça Vidal Ramos (Praça do Pier). Um ônibus desgovernado tomou de assalto a casa da família de Aniíal Cesar, presidente do PTB na época. Um pedestre foi atingido e outros foram socorridos por puro desespero. Numa época onde poucos carros circulavam, a notícia foi impactante, O filho de Aníbal Cesar, proprietário da casa estilo "californiano" Júlio Cesar, veio a ser prefeito de Itajaí em 1972, ano em que a convite de Washington Nicolau inaugurou o Ed Catarinense .
Fotocomposição dos autores e foto Casa Aníbal Cesar. 1958 CDMH - Arquivo Público de Itajaí. Lado: dos autores.


Tanque cheio
Inaugurada em 1915, e construída nos moldes da liga Hanseática (cidades da Alemanha que tinham uma associação mercantil), pertencia a família do professor Nicolau Malburg, radicado em Itajaí em 1858. Fundador da Cia. Comércio e Indústria Malburg S.A em 1860. Condecorado por Dom Pedro II no fim do reinado e, dirigente do Partido Republicano Catharinense em Itajahy em 1899, foi empresário bem sucedido. Primeiro a instalar um posto de gasolina e uma oficina Ford na cidade. O casarão já funcionou como Hotel, sede da Cia de Seguros Minas Brasil, residências alugadas, sede do Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (FUNRURAL), e escritórios. Após uma restauração feita em 1989, a Casa Malburg passou a ser sede da Receita Federal. (Tombo Estadual 3460/2001 e Municipal 5909/1999).


Vai um cafezinho aí?
O Edifício Olímpio, "Café Democrático" foi construído por iniciativa de Samuel Heusi e Olympio Miranda Jr. nos idos de 1920. O local serviu primeiramente - conforme noticiam os ex-Prefeitos Carlos de Paula Seára e Paulo Bauer - para abrigar uma tipografia de propriedade de Eugênio Currlin. Em seguida, instalou-se no local uma farmácia de propriedade do Sr. Raul Heusi Silva, que cedeu lugar tempos depois a uma amplo "café" cujos donos eram os Srs. Nelson Seara Heusi e José Gall. Finalmente, o conhecido e lembrado "Café Democrático" iniciou suas atividades com o Sr. Samuel Heusi Jr., popular Zena, que, posteriormente o transferiu para o Sr. José Espíndola. O Café Democrático foi local dos mais atraentes para políticos, intelectuais e pessoas de destaque social. Muitos dos mais expressivos eventos ocorreram em sua esquina. Verdadeiro ponto de encontro para longas e intermináveis conversas dominicais, principalmente após a missa e aos finais de tarde. Indispensáveis para quem quisesse pôr-se a par das novidades.


Receita de sucesso
A Pharmácia Brasil, inaugurada em abril 1910 atendia nas vinte e quatro horas. No entanto, nesta farmácia havia muito mais do que o conforto medicinal. Havia Heitor Liberato, com sua imagem austera e simpática, sentado junto a uma escrivaninha, acolhendo as pessoas na doação constante de seu tempo. Trazia a sabedoria de um iluminado. Possuía segredos maravilhosos, quase mágicos, que usava na manipulação de suas poções e unguentos, a que se dedicava num ritual. No preparo dos receituários, eram usados só produtos importados. Em 1911, inaugura sua segunda Pharmácia, a Popular. Em 1914, foi um dos pioneiros a comprar automóveis para aluguel na praça. No Rio de Janeiro, a partir de 1925, começa adquirir o que havia de mais moderno para a montagem de laboratório farmacêutico e que viria a ser o atual Laboratório de Análises Clínicas e Imagem São Lucas.


"Pharaonismo"
Concluído em 22 de outubro de 1925 pelo então prefeito Marcos Konder a "Superinthendência de Itajhay" quando anunciada a sua construção, o governo sofreu tremendas críticas devido ao seu ao tamanho e custo. Marcos Konder determinado, executa-o na recém criada república brasileira. O prédio ao longo do tempo abrigou os três poderes no município, até 1953, quando o Fórum deixou o prédio. Em 1973, foi a prefeitura que deixou a construção e em 1999 a estrutura não comportou mais a Câmara de Vereadores. Após a criação da Fundação Genésio Miranda Lins, o período de 1976 a 1982 foi dedicado a remodelação da estrutura física do Palácio Marcos Konder para abrigar o Museu Histórico de Itajaí, inaugurado em 5 de janeiro de 1982. O Arquivo Histórico e a Biblioteca também ficaram instalados no Palácio até 1998. Desde 1999, somente o Museu Histórico de Itajaí ocupa o prédio. Por muitos anos, pesquisadores acreditavam que a falta de uma quarta torre seria devido a falta de recurso na época de sua construção. Por dedução óbvia, Agê Pinheiro estando diretor do Museu (2010/2016) conclui que as 3 torres do Palácio conotam os 3 Poderes da República.(Tombo Estadual 3460/2001 e Municipal 5758/1998).


A "Escola de desemburrar"
Itajaí registra seu primeiro núcleo de educação pela Lei nº 09 onde cria uma cadeira de primeiras letras, na Paróquia do Santíssimo Sacramento (Igrejinha da Imaculada) de Itajaí. Em 15 de setembro de 1835 foi publicado edital para seleção do professor responsável pelo ensino de ler, escrever, as quatro operações aritméticas, gramática portuguesa, ortografia e doutrina cristã. O professor percebia 180 mil réis anuais. O primeiro professor foi Francisco José das Neves que começa a lecionar no ano de 1837. A escola primária era conhecida como "escola de desemburrar". A realidade muda com a grande reforma no sistema de ensino em Santa Catarina no governo de Vidal Ramos de Oliveira. O Grupo Escolar Victor Meirelles, inaugurado 1913 era inovador porque trouxe a seriação do ensino, até então "escolas isoladas" A introdução do método intuitivo na vivência prática da vida; além dos laboratórios de Desenho, Matemática, Física, Química, Música e Línguas (idiomas). Desde 1988 abriga a Casa da Cultura Dide Brandão. (Tombo Estadual 3459/2001 e Municipal 5757/1998)


A Transilvânia
Em fins da década de 60, Itajaí deu início a uma série de obras na malha viária com o intuito de viabilizar o escoamento da economia portuária. Uma delas foi a extensão da então existente Heitor Liberato (Rua Silva) à Av. Adolfo Konder. Na foto acima, está a ponte da Rua Silva e seu entroncamento, local onde atualmente vimos a Havan e a Loja Tamoyo. Na foto abaixo a sua extensão até a BR 101. Durante muito tempo esta avenida recebeu o apelido de "Transilvânia" pelos adversários políticos municipais. Isto porque alegavam que a estrada ligava "nada a lugar nenhum" e que era um grande desperdício de dinheiro público, ou seja, dinheiro "jogado no mato". Hoje ela é importante elo de ligação a vários bairros do município e importante acesso à BR 101.
obs* A Transilvânia é uma região situada no centro da Romênia, conhecida por cidades medievais e região que deu origem às lendas de vampiros, imortalizada nos cinemas .


Macuca
O alemão Klobenz chega ao Porto de Itajaí em 1907, trazendo uma carga de oitocentas toneladas de material ferroviário, incluindo a locomotiva de serviço apelidada de "macuca". Sob o controle do governo integra-se à rede nacional e ao serviço de navegação fluvial entre Itajaí-Blumenau, formando o primeiro intermodal de transporte de Santa Catarina. Os anos de 1925/27 concluíram o trecho até Ilhota/SC. De 1936 à 1954, os 56 Km da ferrovia foram concluídos. Alí no Bairro Fazenda, a área conhecida com "Esplanada" (atualmente Havan, Mercado Bistek e Terminal Urbano), era a parada final ou inicial do trajeto de passageiros chamada de Estação Getúlio Vargas, além dos galpões de serviços de manutenção. Havia, ainda um conjunto de casas de alvenaria onde moravam os funcionários; local compreendido entre as quadras da 7 de setembro e Av. Contorno Sul. Na atual rótula da concessionária Ranault havia um entroncamento que ligava o trajeto indo pela Rua Indaial até o Porto de I|tajaí, exclusivo para o transporte de mercadorias vindas ou idas ao Alto Vale. A Estação Engenheiro Vereza, (Tombo Municipal 6577/02), na Itaipava tinha o objetivo de servir de ponto de início do entroncamento que levaria a ferrovia até Brusque mas não foi concluído porque desde a década de 1940, o transporte férreo perdia espaço. Em março de 1971 um trem de passageiros fez a última viagem pelo Vale do Itajaí.

Foto: Cia EFSC 1939-40 / Estação Eng. Vereza - Museu Étno Arqueológico de Itajaí - FGML/ CDMH - Arquivo Público de Itajaí.

Cerquinha no enterro
A imigração em Itajaí é marcada, em sua maioria, por alemães que logo começaram a se destacar pelo empreendedorismo. Tensões e conflitos demarcaram este período na cidade. Na raíz de alguns atritos, a fé se perdera! Católicos (e brasileiros) no "ciúme de seus negócios" bateram de frente com os luteranos instalados aqui; pois quem professasse um credo diferente daquele oficial do Estado brasileiro tinha dificuldades, por exemplo, para se casar com cônjuge católico ou para ser sepultado em cemitério católico ou mesmo público. "Foi o que acontecera com Jacob Heusi, suíço e luterano, ao se casar em 1867 com Anna Hoeschl, austríaca e católica. O presidente da Câmara Municipal se exasperou e ameaçou levar o vigário às barras da justiça, por ter realizado o casamento sem obediência às letras da lei". Casamento nestes moldes, só com a permissão do presidente da Província. O primeiro cemitério de Itajaí (atrás da igreja da Imaculada|) pertencia à Igreja Católica e os luteranos eram sepultados do lado de fora da cerca do cemitério, acontecendo muitas vezes que suas sepulturas fossem violadas por animais. em 1863, que a Câmara Municipal adquiriu terreno e destinou, nos fundos, uma ala separada para os luteranos. Indignados, decidiram por se organizar em comunidade, ter seu próprio cemitério e seu templo. Em 1870, Samuel Heusi, presidente, Hermann Willerding e Karl Hugo Praun fundam a comunidade Luterana que logo adquiriu uma área contígua ao cemitério público, para o cemitério protestante, esse cemitério se localizava na área da Matriz. Em 1891 inauguram o primeiro templo evangélico.


Cadê o fiscal?
O prédio da Fiscalização dos Portos de Itajaí, foi construído na década de 1930 para ali se instalar o escritório e o depósito de materiais necessários às obras projetadas para o porto de Itajaí. O antigo prédio sofreu reparos em fins de 1943 e, em 1962, já se encontrava em mau estado de conservação. Na década de 1970, uma Comissão de Cultura almejava tornar o prédio num Museu do Porto (com projeto de restauro), mas nada se concretizou. Na década de 2000, onde parte da antiga cidade foi engolida para a construção do Berço 2, o imóvel foi palco de uma intensa discussão entre demolir, transferir ou restaurar... Em 2015, o imóvel é entregue à comunidade restaurado e até o momento segue sem uso, devido as recorrentes altas de marés que o tomam. (Tombo Estadual 3459/2001 e Municipal 5992/1999).


Entre o Adão e o Alfredinho
Popularmente conhecido por "Alfredinho", proprietário do comércio "SECCOS E MOLHADOS DO ALFREDINHO" (1923/28), Alfredo Conrado Moreira também era proprietário acionista da empresa madeireira "Moreira & Willerding", Ao abrir a sua loja de Secos e Molhados, trouxe entre os produtos a grande novidade nesta época: o comércio de "roupas prontas", visto que até então alfaiates e costureiras eram o serviço recorrente na aquisição das mesmas. Eis que no prédio ao lado do Alfredinho (local do Back Door Pub) despontava o ilustre alfaiate "Pequeninho", de estatura alta contrariando seu apelido. Ele, com o receio de seus negócios decaírem pela novidade de "Alfredinho", tratou logo de criar um "slogan" que marcasse a sua importância profissional local:
"ADÃO NÃO SE VESTIA, PORQUE PEQUININHO NÃO EXISTIA!"
Por muitos anos, pelo motivo satírico de seu slogan, a sua marca permaneceu no cenário cultural da cidade.
Texto adptado de Edison D``avila - Memorias e Fatos -Diarinho do Litoral.



Nem a enchente a levou
A Cia. Malburg a edificou em 1924 e em 1940 a Companhia Bauer adquiriu o imóvel e instalou, no térreo, a primeira agência da Chevrolet em Itajaí. Seu proprietário, João Bauer teve residência próxima à empresa que comprara e que ficava na rua Felipe Schimidt esquina com a Samuel Heusi. Em 1947, foi instalado o Ginásio Itajaí onde teve início as atividades educacionais. Com a transferência do Ginásio para a Escola Normalista (atual Salesiano), passou a funcionar ali o Grande Hotel Catarinense, muito frequentado pelos marítimos. A parte que faz frente para o Rio Itajaí-Açu, era utilizada para depósito de mercadorias embarcadas por via marítima para outros portos. (Tombo Estadual 3460/2001 e Municipal 7925/2001).

A casa do "Commércio Internacional"
Em 1923, em sucessão à firma comercial que construíra anos antes o comerciante Francisco de Almeida associou-se a seu cunhado Augusto Voigt e fundou a empresa Almeida & Voigt, sociedade mercantil que se dedicou ao mesmo ramo da antecessora, isto é, comissão, consignação, representações, expedições, despachos e conta própria. Francisco de Almeida e Augusto Voigt foram destacados empresários do ramo comercial de Itajaí, participando inclusive da fundação do ex-Banco Inco, de que foram acionistas. A Casa Almeida & Voigt é um ilustrativo exemplar da arquitetura comercial das primeiras décadas do século XX, quando o Porto da cidade conheceu o melhor tempo de seu desenvolvimento econômico com a navegação de cabotagem e, quando inúmeras empresas se firmaram na cidade. Sua fachada destaca-se o Globo entre a nascente e o poente, ênfase onde uns dormem outros acordam. A Casa Almeida & Voigt é tida como uma das primeiras no setor "logístico" a instalar-se no município. (Tombo Estadual 3459/2001 e Municipal 7924/2006).


"Timbuca"
Morador do Ed. Catarinense, José Eliomar da Silva, foi médico e professor universitário vinculado à Fepevi. Conhecido em Itajaí com o pseudônimo de Timbuca, ganhou repercussão como cirurgião ao realizar a primeira cirurgia de redesignação de gênero (mudança de sexo) em Itajaí, e anunciada na imprensa nacional em 07 de dezembro de 1958, a primeira do Brasil. Colaborou com o jornal A Cidade [1958], Tribuna de Itajaí [1959], A Tribuna Itajaiense [1998-2000]. Foi diretor do Hospital e Maternidade Marieta Konder Bornhausen [1956, 1965], Rotary Clube de Itajaí [1957], Sociedade Estiva Esporte Clube [1957] e Clube Náutico Marcílio Dias [1963, 1965]. Foi um dos fundadores da Associação de Combate à Tuberculose de Itajaí [1957] e presidente da Associação Catarinense de Medicina – Regional Itajaí [1969]. Delegado do Samdu do Estado de Santa Catarina. Escritor e cronista, membro da Academia Itajaiense de Letras lança em 1983, o romance "Coronel também Chora", cuja tônica traz traço marcante do conflito entre o poder e o ser.


O Peixe pediu passagem
No final da década de 50, uma sucessão de obras de melhoria vinham sendo incorporadas na cidade como: a abertura da Av. Joca Brandão, a Caixa d´Água ampliando a rede de distribuição e armazenamento de água potável, a Clínica de Saúde Pública atrás da nova Matriz, entre outras. Neste período Itajaí ganha a sua rodoviária. Localizada no prédio onde esta o atual Mercado do Peixe, ampliou as linhas comerciais de transporte e de prefixo com outras cidades catarinenses. Ficou ali até meados da década de 70, quando foi transferida para o espaço onde encontra-se hoje a Prefeitura de Itajaí.

BNC e a hipoteca imigratória
O Banco Nacional do Comércio - BNC foi uma iniciativa do setor comercial porto alegrense que passa, a partir dessa década, a se favorecer do crescimento econômico das unidades agrícolas de imigrantes europeus implantadas nos decênios anteriores. Teve envolvimento contínuo na comercialização de produtos através do Porto do Rio Grande e Itajaí, bem como no financiamento do comércio e indústria de toda Região Sul. Nos primeiros dez anos se restringiu basicamente ao empréstimo sob hipotecas, tendo com isso acumulado muitos imóveis adquiridos na liquidação de contas de credores inadimplentes, em sua grande maioria imigrantes que investiram no Alto Vale. Em Itajaí, sua agência foi edificada na década de 30 e perdurou ali ate 1962. Atualmente o prédio pertence a Clínica São Lucas.

Anos Dourados
O Grande Hotel surge no cenário da cidade em 1940. Palco de grandes acontecimentos, foi por décadas o mais sofisticado no ramo. Candelabros de cristais adornavam a entrada e o hall em mármore Carrara dava toque final a suntuosidade do prédio. A proprietária Alzira Bornhausen Pereira, o comandou até os seus 90 anos, falecendo em 2021. Foi uma das pioneiras da hotelaria em Itajaí. Ela começou o Grande Hotel a cerca de 65 anos, quando ainda estava localizado na esquina da rua 15 de novembro. O hotel mudou o endereço para a Rua Felipe Schmidt, no centro, adquirido pela rede de hotelaria Pires (também proprietário do NOVOTEL), o antigo Grande Hotel passou a chamar-se "Itajaí Express"


Água de beber
Quem passa pela rua João Bauer, perto do hospital Pequeno Anjo, no centro de Itajaí, já se deparou com uma enorme caixa d'água que fica no antigo prédio da Casan, Companhia Estadual de Água que por décadas tocou o serviço em Itajaí. A construção, datada de 1954, é considerada um símbolo da arquitetura modernista e um dos mais bonitos reservatórios do Brasil. Até então, o único reservatório da cidade era o Reservatório da Ressacada (deu origem ao bairro). Quando inaugurada atendeu a demanda por água de uma população em crescimento, quando Itajaí tinha cerca de 50 mil habitantes. Foi projetada pelo escritório de Saturnino de Brito Filho, o mais famoso escritório de engenharia sanitária do Brasil à época.

Hosana nas alturas
O plano de uma nova Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento para a paróquia surge em 1905, dentro da política de zoneamento que estimulava a expansão da cidade para o sentido oeste. Em 1938, uma planta foi encomendada pelo o pároco, Pe. José Locks ao arquiteto alemão Simão Gramlich. Foi muito discutida pelos elevados custos mas ao final, o projeto de Gramlich é o eleito pela Comissão de Obras. Em 1947, novo pároco assume (Vandelino Hobold). Pe Vandelino, inconformado com a fachada, queria algo maior, que se elevasse aos céus. Sugere a aplicação de um segundo frontão para alocar alguns apostólos bíblicos, dando majestade ao prédio. Não contente, adicionou o relógio e a "rosácea", eliminando as colunatas verticais que as compunha. Ainda, eliminou o telhado elevado dando-nos a impressão de obra inacabada (fotoa abaixo):



Traz obras de seis artistas, três alemães e três italianos. Simão Gramlich – arquiteto, Martin Obermeyer – vitralista, Erwin Teichmann – escultor. Os iconógrafos da arte pictórica: Emílio Sessa, Aldo Locatelli, e Attílio Pisoni. "Esta é a Casa de Deus e porta do Céu", — na feliz expressão de dom Joaquim quando da inauguração — (Tombo Estadual 3459/2001).
Antigas - Igreja Matriz de Itajaí - 1921/44. CDMH - Arquivo Público de Itajaí. Arte/Foto de estudo - Angelina Withmann - Matriz



Aves de rapina
O primeiro aeroporto de Itajaí foi construído paralelo à rua dos Atiradores (atual rua Uruguai), na década de 1930 e ali funcionou até 1949. Era composto de uma pista de terra batida, "macadame". Tudo indica que foi utilizada uma antiga raia de corrida de cavalos do superintendente Samuel Heusi. Diante da pressão de empresários do Vale do Itajaí, (notadamente de Itajaí, Brusque e Blumenau), um novo aeroporto foi construído pela prefeitura de Itajaí, em 1949, às margens da rua Blumenau o prédio é o da atual CELESC. Em 1950, ele recebeu o nome de Aeroporto Ministro Salgado Filho. O aeroporto municipal tinha duas pistas invertidas, com 850 e 950 metros. Recebeu visitas ilustres como o Presidente Juscelino Kubitschek e a então Miss Brasil Vera Fisher. Itajaí estudava a transferência da pista para um outro lugar, e o local escolhido foi a "Fazenda Real" em Navegantes, então, bairro de Itajaí no ano de 1958. Após a aquisição das terras e alguns investimentos preliminares, além do documental, Navegantes num rompante de liberdade emancipativa torna-se muncípio em 1962 e o Aeroporto, como previsto pela Legislação, foi para lá em 1970. Na tarde do dia 12 de março de 1970, às 16 horas, o avião PP – VDT da Varig, com capacidade para 30 passageiros, fez o primeiro pouso no Aeroporto de Navegantes, que na época ainda chamava-se Aeroporto de Itajaí.



Doce medo
No início da Rua Brusque havia uma curiosa casa. Em sua fachada um coelho enorme tomava vida no período de Páscoa. Era a casa de "Dona Bolinha" responsável pela fabricação dos doces e cestas para atender a criançada. No período da Páscoa a casa era enfeitada em arranjos e o coelho tomava vida ao acender os olhos. Havia àquelas crianças desavisadas que se assustavam quando os olhos do coelhos se acendiam no entardecer. O fato é que passado o susto criava-se uma expectativa entorno da casa para que a próxima Páscoa chegasse logo. O coelho era essa dinâmica, um exercício na formação da coragem. Mesmo após a sua demolição, o referido coelho foi preservado e recuperado. Encontra-se instalado no parque infantil da praça da Matriz.




Urbano e terminal
No início da década de 80 Itajaí recebeu o seu primeiro terminal urbano, sobre o aterro e na recém aberta Av. Min. Victor Konder (Beira Rio). O local onde está o Centro de Eventos de Itajaí. Alí, logo de início, se evidenciou um grande problema para as operações do transporte: primeiro porque com assentamento do solo, suas vias começaram a afundar, seguido do descontentamento da população por ser um local "ermo", Estes problemas se agravaram ainda mais com as cheias de 1982/1983. Fato é que em 1987 o espaço foi revitalizado inaugurando a 1ª Marejada. Os antigos pontos dos ônibus foram transformados em barcos como numa procissão, onde vendia-se a gastronomia da festa. Na entrada do antigo terminal, um pórtico português e moinho de vento davam as boas vindas aos visitantes. Um novo terminal no bairro Fazenda destinou-se ao embarque e desembarque.

O petróleo de Guido
O ano era 1929 e parte da rua Hercílio Luz estava composta de algumas poucas casas, comércio fraco e algumas fábricas, entre elas a de "gelo" pertencente a Samuel Heusi, nas imediações onde está o Ed. Rio do Ouro. O fato é que, quando abriram um poço artesiano de 42 metros de profundidade, aflorou grande quantidade de gás em pleno centro da cidade, além da água. O mesmo fato ocorreu na atual praça do Gonzaga (popular "dos cachorros"), perto do Porto, na rua Blumenau. Ali estava instalada a Usina Adelaide. Lá, o poço artesiano de 46 metros jorrou pressão fenomenal, jogando água a 6 metros de altura. Acontece que Guido Grubitsch, engenheiro austríaco e sócio de Genésio Lins já estava pesquisando a muito tempo um "filete de óleo" que corria naquela localidade em direção ao Rio Itajaí. Eram tantas as evidências da existência de petróleo no subsolo da zona urbana, que Guido gastou um bom tempo de sua vida promovendo detalhado relatório técnico para órgãos do Governo Federal. O "relatório Guido" seguiu na burocracia estatal brasileira. Ele morre esperando e o relatório sem resposta.

Os olhos, gritavam!
Um pássaro gigante, de mais ou menos 4,5 metros de altura, habita Itajaí faz muito tempo. Ele é admirado por moradores e turistas e é um dos principais cartões-postais do Município. Só que a ave em questão não voa e nem tem vida. Trata-se do Bico do Papagaio, monumento histórico cravado entre as praias da Atalaia e Geremias, que leva até a praia de Cabeçudas em um caminho pela beira do mar. Monumento acidental, que ganhou forma no começo do século 20, quando a empresa Cobrazil se instalou na cidade para a construção dos molhes que formam hoje o canal de entrada do rio Itajaí-açu. A história do Bico do Papagaio tem um parágrafo divertido mas que pouca gente conhece: dois olhos foram pintados no monumento na década de 50, para dar mais "vida" ao pássaro. Paulo Bauer, prefeito na época, justificou que tentou enriquecer o monumento, mas os olhos não caíram no gosto popular e viraram gozação. Apesar disso, ele sempre foi bastante querido e o pessoal costumava dizer: ''mais uma do seu Paulo'.


Água pra que te molhes
Relatos históricos mencionam a importância do Porto de Itajaí desde o séc. 19 não somente no que se refere ao ingresso de colonizadores estrangeiros, mas também ao forte comércio fluvial que acontecia em Itajaí. Os primeiros estudos técnicos sobre o Porto de Itajaí datam de 1905, realizados pela "Comissão de Melhoramentos dos Portos e Rios". Isto porque o acesso ao canal do rio estava ficando inviável a "navios vapor" cada vez maiores. A Cobrazil chegou entre 1909 e 1910. Os funcionários dinamitavam pedras no morro da Atalaia e as usavam para a construção dos molhes. Antes as ondas do mar iam onde hoje é o Saco da Fazenda e batiam até nos fundos do Mercado Público. Por volta de 1914, foram construídos 700 metros lineares do molhe Sul e, mais tarde, realizadas outras obras incluindo as do molhe Norte. A prefeitura de Itajaí fez um pedido para a Cobrazil abrir a estrada até a praia de Cabeçudas, antes acessada somente pelo morro Cortado.


Raízes do medo
As terras em que se encontram as palmeiras reais pertenceram, inicialmente, a José Pereira Liberato que construíra aí uma fazenda de engenho. No começo do século 20 o imigrante José Gall adquiriu as terras e edificou a sua morada em estilo germânico. Para dar à entrada de sua propriedade um aspecto pomposo mandou vir do Jardim Botânico (Rio de Janeiro), mudas de palmeiras reais que plantou em duas alas nas margens do caminho da então residência. Por muitos anos abandonada, era comum ouvir relatos de barulhos apavorantes, logo, era tida como uma casa fantasma. Acontece que nos fundos dessa propriedade havia uma ponte férrea. da Estrada de Ferro Santa Catarina - EFSC. Em dias de fortes chuvas, era comum madeiras se entulharem em sua base, reverberando um som grave nos metais da ponte. Foi demolida na década de 1970, preservando-se o belo renque de palmeiras reais e receberam Tombo Municipal 5006/93.


Ervas finas
Alí, na Avenida Marcos Konder seja morador ou de visitante, fica curioso sobre o casarão que leva o nome de Herbário Barbosa Rodrigues. O que nem todos sabem é que ali dentro, uma entidade sem fins lucrativos recebe pesquisadores botânicos do mundo, todo pois abriga o registro de 95% das espécies de plantas existentes no chão catarinense. Um dos maiores do Brasil, o Herbário é considerado o mais completo acervo da flora de Santa Catarina com mais de 70 mil espécies de plantas. Fundado em 1942, pelo padre e botânico Raulino Reitz, ao lado de Roberto Miguel Klein o padre Raulino construiu um verdadeiro presente à ciência em pleno centro de Itajaí. (Tombo Municipal 12096/2020)


Vila aos operários
O bairro Vila Operária foi o primeiro a ser planejado. A origem do nome remonta a década de 25, quando o empresário e político José Eugênio Muller fundou uma sociedade com o objetivo de criar vilas operárias no município. O ponto inicial foi a fábrica Petermann & Cia , pois permitiria que trabalhadores desta empresa morassem perto. Na época, madeireiras movimentavam a economia local, junto com o porto. A ideia era vender lotes para construção de casas populares. O prédio da Petermann & Cia. foi adquirido pelo grupo Renaux (Brusque), onde foi fábrica de tecido por muitos anos. Após a sua desativação e ter abrigado algumas entidades, no ano de 2000 ali se instalou a Biblioteca Pública Norberto Cândido Silveira Jr. (Tombo Municipal 5910/99).


O trem partiu
Chamada de rua São Bento, (Av Marcos Konder), pequeno trecho que em 1907 unia as ruas 15 de junho (Gil Stein Ferreira) e República (Dr. José Bonifácio Malburg). Marcos Konder, homem visionário, então prefeito entre os anos de 1920/25 pensou em expandi-la através de um projeto que previa o porto na ponta norte e a ferrovia ao sul (Fazenda). Mas, com recursos escassos pode abrir apenas uma segunda pista, deixando como vimos hoje, aquele espaçamento entre a Matriz e o Museu. Só em 1969, Carlos de Paula Seára (Lito) encabeçou, através de muitas desapropriações (madeireiras), a ligação ao sul com a Av. Joca Brandão e, ao norte com a Av. Eugênio Müller (do porto). Ainda, homenageou seu primeiro idealizador, pondo o seu nome: Marcos Konder. Foi só na década de 90, que a ideia de ligar esta avenida ao bairro Fazenda se concretizou com a Av. Abraão João Francisco (contorno sul).


![Aluna do Curso Complementar de Itajahy [1917], Escola Normal – Florianópolis [1918]. Tenista do Clube Náutico Marcílio Dias [1921]. Empresta seu nome para o principal hospital da Região da Grande Itajaí - esposa de Irineu Bonhausen governador que inaugurou o hospital. CDMH/Arquivo Público de Itajaí](https://8a6a6e86c8.cbaul-cdnwnd.com/b7d5c2b7286a91c2dc9a95f4ee483ada/200000870-5b1795b17d/1.%20Marieta.jpeg?ph=8a6a6e86c8)
Com vista para o mar
Quem caminha pela via que leva a Cabeçudas, passa por um pequeno santuário e fragmentos de uma escada na encosta do morro. Ali situava-se o primeiro hospital da cidade, o Santa Beatriz. No dizer do dr. Menescal do Monte, seu primeiro médico, "o melhor e mais belo não haveria para a sua construção". O nome do Hospital homenageava a esposa do então presidente da província de Santa Catarina, Francisco José da Rocha - Beatriz. A pedra fundamental foi lançada em 1886, foi construído com o imposto de 100 réis por dúzia de madeira exportada e inaugurado no ano seguinte. Em 1917 num vapor do Norte, chegaram de São Paulo quatro irmãs de caridade italianas, contratadas como enfermeiras. A gruta de nossa senhora de Lourdes, obra que se deveu à sra. Elizabeth Malburg passou a ser local aonde se faziam romarias em datas especiais celebradas pela Igreja. Na década de 50 o Hospital foi transferido para prédio da rua 7 de Setembro com o nome de Marieta Konder Bornhausen. Em 1962, o velho "Santa Beatriz" passou a funcionar como sanatório e de tratamento da tuberculose. Desativado alguns anos após, quando a tuberculose, não só em Itajaí, mas no Brasil, passou a ser tratada ambulatorialmente.

Corda bamba
"O ano exato em que ocorreu o incidente Vô Doca não soube precisar, mas garante que a história do sino da igrejinha da Imaculada Conceição é verdadeira, já que ouviu diversos relatos quando na boleia de seu carro-de-praça.. O fato é que a igrejinha estava lotada de fiéis que participavam da missa de domingo quando um grande barulho, vindo da parte da frente do prédio, desviou a atenção de todos. Assustada com o estrondo produzido por causa ignorada a maioria tomou a decisão de atender seu instinto de sobrevivência e deixar o mais rápido possível o local do culto, ocupando as duas praças existentes no entorno da igrejinha. Saíram todos pelas portas laterais, menos o padre. 37 Depois de um bom tempo, com os mais destemidos indo ao local conferir o que poderia ter causado o temerário barulho, ficou esclarecido que o mesmo foi produzido pela queda do sino. Provavelmente, o sacristão ficou empolgado e colocou força demais ao dar as tradicionais badaladas para chamar os fiéis para a missa dominical e o instrumento saiu de seu suporte de madeira. Constatado que não havia qualquer perigo à segurança dos fiéis a missa voltou ao seu normal com o padre iniciando seus trabalhos religiosos com a frase 'Cristãos de pouca fé" - Transcrito da obra "Histórias de Itajaí" - Magru Floriano.

Meia sola
Na Itajaí do início do sec 20 as lojas de "Seccos e Molhados" figuravam as tendências nos costumes sociais, e entre um aparato de produtos vindos de São Paulo, Rio e até mesmo do exterior estavam os sapatos. O fato é que, "a exigência do seu uso quase inviabilizou o grande projeto educacional do governo Vidal Ramos que aqui em Itajaí, em 1912, montou uma escola modelo denominada de Grupo Escolar Victor Meirelles". Logo da sua inauguração foi imposta a regra de que "os educandos deveriam comparecer às aulas calçados". Observou-se que a frequência do alunado caiu drasticamente. Então, o seu diretor Henrique Midon foi aos jornais (1914), "...podem comparecer às aulas descalços... com os pés descalços!" O sapato era um artigo de luxo e salvo poucas famílias mais abastadas podiam de vez em quando, adquirí-los. Em 1908, por exemplo, um grupo de comerciantes criou um "consórcio", clubes de sorteio em que até mesmo os mais endinheirados participavam. A retirada do produto se dava nas "lojas de Guilherme Schnaider, Agesislau Seára, Sinval Seára e João Acary. Por volta de 1917 o próprio João Acary liderou um grupo formado por Emmanoel Currlin, Manoel Vieira Garção e João Kracik ditando as novas regras do consorcio, "avisando a seus clientes que não estaria mais emprestando os sapatos para serem provados a domicílio. Quem quisesse, a partir de 26 de janeiro de 1917, tinha de provar os preciosos sapatos nas dependências da própria loja.

Caça aos tiros
A caça as aves, em tempos atrás, era prática comum. O exercício da caça começava desde criança com o uso do estilingue, aqui na região conhecido por "funda". O fato é que com o desembarque da colonização belga, alemã e até italiana no porto de Itajaí , a prática de "Caça e Tiro" tomou feições de clubes organizados que valiam disputas acirradíssimas. Nasce assim o Clube da Caça e Tiro Vasconcelos Drumond em 28 de abril de 1895, por um grupo de cidadãos de origem germânica radicados em Itajaí, e pertencentes a muitas das mais ilustres e tradicionais famílias locais. E, para o treino de pontaria, "urubus" tornaram-se alvos. O jornal O Pharol, de 02 de julho de 1921, traz publicação atendendo os reclames de moradores das ruas XV de Novembro, Pedro Ferreira e Guarany (atual José Bonifácio Malburg), que alegavam risco de vida por conta da prática de alguns caçadores em pleno centro da cidade: Cita: "É raro o telhado das casas das ruas que não estejam dois ou três urubus mortos, já em adiantado estado de decomposição."





O peso do papel
A importância da Fábrica de Papel Itajaí ultrapassava as fronteiras da cidade. No terreno, o vincentista Dias Arzão em 1658 montou sua residência. Depois, Hermann Blumennau abrigou os recém chegados colonos antes de partirem ao Médio e Alto Vale do Itajaí. Área histórica, foi adquirida por Gottlieb Reif, um pioneiro de iniciativas industriais no Vale para empreender uma fábrica de charutos, em sociedade a Kurt Hering. Tendo Itajaí forte potencial de escoamento de cargas fez com que o empreendimento tomasse pulso inaugurando junto à barra do rio Itajaí-Mirim em 1913, a indústria. Em seu território, onde situa-se Nova Brasília e Bambuzal, a fábrica mantinha plantação de bambu e de cânhamo. Em 1941, influenciado pelas condições de guerra, levou a efeito uma série de arrojados investimentos para a produção das matérias primas básicas da indústria do papel. Assim, adquiriu enormes reservas de florestas e criou hortos de reflorestamento que abastecia de matéria prima suas máquinas. Na fábrica de Itajaí, instalou equipamentos para celulose e pasta mecânica, enquanto duplicou as instalações para o fabrico do papel e construiu três fábricas novas, a saber: a fábrica de celulose de Bocaina do Sul; a de papelão e cartão de Ituporanga, e de papelão em Perimbó (Petrolância/SC). A fábrica encerrou as atividades e demitiu os funcionários em março de 2014, depois de sofrer um embargo da Fundação Estadual do Meio Ambiente. Logo após, foi demolida sem tempo aos apelos patrimonialistas locais.

Mostra aí, Ithajay
Vídeos espetaculares de 1927 com imagens terrestres e aéreas de Florianópolis, Itajaí e Blumenau.
Em 1º de janeiro de 1927, o hidroavião "Atlântic" saiu do Rio de Janeiro em diração à Santa Catarina, Dornier D-1012, pertencente à empresa alemã Condor-Syndikat. Estavam nessa comitiva o empresário da aviação Fritz Hammer, dois jornalistas, um cinegrafista, três tripulantes e o Ministro de Viação e Obras Públicas, o itajaiense Victor Konder. O voo era uma demonstração da empresa buscando garantir a autorização do governo brasileiro para operar uma linha aérea dentro do território nacional. A histórica viagem se transformou num marco da aviação comercial brasileira: foi o primeiro voo de transporte de passageiros em território nacional.
fonte: https://floripacentro.com.br
Bora mergulhar? Cabeçudas!

O nome Cabeçudas faz referência à morraria constituída pelo Morro do Farol e o Morro da Caverna do Morcego, que, a vista do navegante, formam dois cabeços mar adentro.
O percurso original teria vários "cabeços" que foram retirados durante a construção da estrada geral de Cabeçudas. O principal deles deu origem ao Bico do Papagaio. No início e por muito tempo essa área foi habitada pelos índios Carijós. A partir do sec 19, era apenas um ponto de pesca para pescadores artesanais. Com o desenvolvimento da colonização do Vale do Itajaí, os navios que transportavam os imigrantes, por conta das dificuldades apresentadas pela barra em tempos de mar revolto, fundeavam na enseada e desembarcavam passageiros e mercadorias na "Prainha"; onde posteriormente foi construída a rampa do Iate Clube Cabeçudas. Os europeus que moravam em Santa Catarina no início do século 20, descobriram os benefícios de passear a beira-mar. Até então, o mar era visto apenas como fonte de trabalho e renda. Foram esses catarinenses de origem alemã que incutiram o gosto pelo banho de mar por aqui e descobriram que dava para ganhar dinheiro com essa nova cultura banhista. Os primeiros hotéis começaram a surgir, sendo os de Santa Catarina, a beira mar. Assim, Cabeçudas foi a primeira praia catarinense usada como espaço de lazer e a receber um hotel perto do mar. Nas primeiras décadas do sec. 20 o Porto de Itajaí chegou a ser projetado para o local onde previa também a possibilidade de um ramal ferroviário até a ponta sul de Cabeçudas; mas o projeto não avançou porque o banho de mar caiu no gosto da população.
SANTA CATARINA EM 1939
Praias de Camboriu e Cabeçudas
O rio e a cidade
cheias de mesmo nome
Itajaí, assim como o próprio Vale, teve e continua tendo grandes cheias. Os primeiros registros que se tem notícia são de 1850, na recém criada "Colônia Blummenau". O fato é que a bacia do Vale do Itajaí é entremeada por montanhas cuja desembocadura de seus afluentes se dá na foz do Itajaí Açu (local onde encontra-se a ponte da Av Reinaldo Schmithausen - Cordeiros). Em Itajaí, o problema se agrava quando nesta confluência as águas vindas pelo Rio Itajaí Mirim se encontram com o Itajaí-Açu. Este rio uma vez represado, avança sobre a cidade muito rapidamente no sentido oeste-leste A situação fica ainda mais critica se ocorrer a "alta mará". A maior enchente no Vale do Itajaí ocorreu em setembro de 1880, chegando à marca impressionante de 17,10 metros (Blumenau); um recorde nunca superado. A segunda maior enchente ocorreu em 1911 com a marca de 16,91 metros. Depois, temos as enchentes de 1868 – registrando 16,80 metros; 1852 – com 16,30 metros; 1851 – com 16 metros; 1984 – com 15,46 metros; 1983 – registrando 15,34 metros. Abaixo, alguns registros de nossa cidade:

Primeiro registro de uma grande cheia na cidade de Blumenau (1880) encontrado na Alemanha.
Itajaí em Galeria
1939


1940

1942


1948
1950

1961

1973

1982-83
2001






